Entretanto, neste momento o nosso corpo precisa fazer uma escolha,
ele precisa determinar qual substrato energético utilizar:
gordura, na forma de triglicerídeos, ou carboidratos, na
forma de glicose ou glicogênio muscular. Essa escolha irá
depender de dois fatores: (1) a velocidade de ressintese do ATP;
e (2) se há ou não a presença de oxigênio
durante o processo de transformação.
Na
presença de oxigênio e na pouca necessidade de solicitação
deste macronutriente, o organismo utilizaria a gordura para ressintetizar
ATP, uma vez que a gordura gera mais ATP que a glicose, e sua
fonte é praticamente ilimitada no nosso corpo, não
levando-o ao risco de sofrer pela má utilização
deste substrato. Por outro lado, na necessidade de alta velocidade
de ressintese do ATP o organismo irá optar pela glicose
ou glicogênio hepático e muscular; como em exercícios
extenuantes e muito intensos. Isso também ocorreria na
ausência de oxigênio durante o processo de transformação
para gerar energia, chamado de ciclo da glicólise. Esse
ciclo seria capaz de gerar energia suficiente para ressintese
do ATP, mas teria um efeito indesejável, a produção
de ácido lático (um subproduto "tóxico"
gerado no decorrer do ciclo de ressintese do ATP), que faria com
que o exercício fosse interrompido minutos depois pela
instalação da fadiga muscular dos músculos
ativos (músculos exercitados).
O
lactato não deve ser encarado como um produto de desgaste
metabólico. Pelo contrário, proporciona uma fonte
valiosa de energia química que se acumula como resultado
do exercício intenso. Quando se torna novamente disponível
uma quantidade suficiente de oxigênio durante a recuperação,
ou quando o ritmo do exercício diminui, NAD+ (coenzima
NADH em sua forma oxidada) varre os hidrogênios ligados
ao lactato para subseqüente oxidação a fim
de formar ATP. Os esqueletos de carbono das moléculas de
piruvato formados novamente a partir do lactato durante o exercício
serão oxidados para a obtenção de energia
ou serão sintetizados (transformados) para glicose (gliconeogênese)
no ciclo de Cori. O ciclo de Cori não serve apenas para
remover o lactato, mas o utiliza também para reabastecer
as reservas de glicogênio depletadas no exercício
árduo.
Como
ocorre a produção de Ácido Lático
Quando
a oxidação do lactato iguala sua produção,
o nível sangüíneo de lactato se mantém
estável, apesar de um aumento na intensidade do exercício
e no consumo de oxigênio. Para as pessoas sadias, porém
destreinadas, o lactato sangüíneo começa a
acumular-se e sobe de maneira exponencial para aproximadamente
55% de sua capacidade máxima para o metabolismo aeróbico.
A explicação habitual para um acúmulo do
lactato sangüíneo durante o exercício pressupõe
uma hipoxia (falta de oxigenação da musculatura)
tecidual relativo. Quando o metabolismo glicolítico predomina,
a produção de nicotinamida adenina dinucleotídio
(NADH – coenzima envolvida na transferência de energia)
ultrapassa a capacidade da célula de arremessar seus hidrogênios
(elétrons) através da cadeia respiratória,
pois existe uma quantidade insuficiente de oxigênio ao nível
tecidual. O desequilíbrio na liberação de
oxigênio e a subseqüente oxidação fazem
com que o piruvato (substrato final da degradação
da glicose; muito importante para a formação do
lactato) possa aceitar o excesso de hidrogênios, o que resulta
em acúmulo de lactato.
O
lactato é formado continuamente durante o repouso e o exercício
moderado. As adaptações dentro dos músculos
induzidas pelo treinamento aeróbico permitem os altos ritmos
de renovação do lactato; assim sendo, o lactato
acumula-se para os níveis mais altos de exercício
que no estado destreinado.
Outra
explicação para o acúmulo de lactato durante
o exercício poderia incluir a tendência para a enzima
desidrogenase lática (LDH) nas fibras musculares de contração
lenta favorecer a conversão de lactato para piruvato. Portanto,
o recrutamento das fibras de contração rápida
com o aumento da intensidade do exercício favorece a formação
de lactato, independentemente da oxigenação tecidual.
A
produção e o acúmulo de lactato são
acelerados quando o exercício torna-se mais intenso e as
células musculares não conseguem atender às
demandas energéticas adicionais aerobicamente nem oxidar
o lactato com o mesmo ritmo de sua produção.
Como
responde o organismo na presença do Ácido Lático
Depois
que o lactato é formado no músculo, se difunde rapidamente
para o espaço intersticial e para o sangue, para ser tamponado
e removido do local do metabolismo energético. Dessa forma,
a glicólise continua fornecendo energia anaeróbica
para a ressíntese do ATP. Essa via para a energia extra
continua sendo temporária, pois os níveis sangüíneos
e musculares de lactato aumentam e a regeneração
do ATP não consegue acompanhar seu ritmo de utilização.
A fadiga se instala de imediato e diminui o desempenho nos exercícios.
A maior acidez intracelular e outras alterações
medeiam a fadiga, pela inativação de várias
enzimas na transferência de energia e pela deterioração
das propriedades contráteis do músculo. Entretanto,
a maior acidez (pH mais baixo) por si só não explica
a redução na capacidade de realizar exercícios
durante um esforço físico intenso.
No
exercício extenuante, quando as demandas energéticas
ultrapassam tanto o suprimento de oxigênio quanto seu ritmo
de utilização, a cadeia respiratória não
consegue processar todo o hidrogênio ligado ao NADH. A liberação
contínua de energia anaeróbica na glicólise
depende da disponibilidade de NAD+ para oxidar 3-fosfogliceraldeído
(subproduto da degradação da glicose); caso contrário,
o ritmo rápido da glicólise "se esgota".
Durante a glicólise anaeróbia, NAD+ "é
liberado" à medida que pares de hidrogênios
não-oxidatos "em excesso" se combinam temporariamente
com o piruvato para formar lactato. O acúmulo de lactato,
e não apenas sua produção, anuncia o início
do metabolismo energético anaeróbio.
A
ressíntese dos fosfatos de alta energia (ATP) terá
que prosseguir com um ritmo rápido para que o exercício
extenuante possa continuar. A energia para fosforilar o ADP (resultado
final do ATP depois de liberar energia), durante o exercício
intenso deriva principalmente do glicogênio muscular armazenado
através da glicólise anaeróbica (ritmo máximo
de transferência de energia igual a 45% daquele dos fosfatos
de alta energia), com a subseqüente formação
de lactato. De certa forma, a glicólise anaeróbica
com formação de lactato poupa tempo. Torna possível
a formação rápida de ATP pela fosforilação
ao nível do substrato, mesmo quando o fornecimento de oxigênio
continua sendo insuficiente e/ou quando as demandas energéticas
ultrapassam a capacidade do músculo para a ressíntese
aeróbica do ATP.
Os
acúmulos rápidos e significativos de lactato sangüíneo
ocorrem durante o exercícios máximos (extenuante)
que dura entre 60 a 180 segundos. Uma redução na
intensidade desse exercício árduo para prolongar
o período do exercício acarreta uma redução
correspondente tanto no ritmo de acúmulo quanto no nível
final de lactato sangüíneo.
No
exercício extenuante com um catabolismo elevado dos carboidratos,
o glicogênio dentro dos tecidos inativos pode tornar-se
disponível para atender às necessidades do músculo
ativo. Essa renovação (turnover) ativa do glicogênio,
através do reservatório permutável de lactato
muscular, progride à medida que os tecidos inativos lançam
lactato na circulação. O lactato proporciona um
precursor gliconeogênico capaz de sintetizar os carboidratos
(através do ciclo de Cori no fígado e nos rins)
que irão permitir a homeostasia (tendência do organismo
em manter constantes as condições fisiológicas)
da glicose sangüínea e atender às demandas
energéticas do exercício.
O
lactato produzido nas fibras musculares de contração
rápida pode circular para outras fibras de contração
rápida ou de contração lenta para ser transformado
em piruvato. Por sua vez, o piruvato é transformado em
acetil-CoA para penetrar no ciclo do ácido cítrico
para o metabolismo energético aeróbico. Esse lançamento
do lactato entre diferentes células faz com que a glicogenólise
(conversão de glicogênio em glicose) que ocorre em
uma célula possa suprir outras células com combustível
para a oxidação. Isso torna o músculo não
apenas o principal local de produção do lactato,
mas também um tecido primário para a remoção
do lactato através da oxidação. Qualquer
lactato formado em uma parte de um músculo ativo acaba
sendo oxidado rapidamente pelas fibras musculares com uma alta
capacidade oxidativa (coração e outras fibras do
mesmo músculo, ou dos músculos vizinhos menos ativos).
O
que acontece com o ácido lático e como é
o processo de sua remoção
O
ácido lático é removido do sangue e dos músculos
durante a recuperação após um exercício
exaustivo. Em geral, são necessários 25 minutos
de repouso-recuperação para remover a metade do
ácido lático acumulado.
A
fadiga surge após os exercícios nos quais se acumularam
quantidades máximas de ácido láctico, a recuperação
plena implica remoção desse ácido tanto do
sangue quanto dos músculos esqueléticos que estiveram
ativos durante o período precedente de exercícios.
Em
geral, pode-se dizer que são necessários 25 minutos
de repouso-recuperação após um exercício
máximo para se processar a remoção de metade
do ácido lático acumulado. Isso significa que cerca
de 95% do ácido lático serão removidos em
1 hora e 15 minutos de repouso-recuperação, após
um exercício máximo.
O
termo repouso-recuperação se dá pelo fato
que o ácido lático é mais velozmente removido
se a recuperação ativa em baixa intensidade for
empregada após o exercício, do que se o indivíduo
permanecer em repouso (inativo) logo após o exercício.
Durante
um exercício submáximo, porém árduo,
no qual o acúmulo de ácido lático não
é tão grande, será necessário menos
tempo para sua remoção durante a recuperação.
Em
condições aeróbicas, o ritmo de remoção
do lactato por outros tecidos corresponde a seu ritmo de formação,
resultando na ausência de qualquer acúmulo efetivo
de lactato, isto é, a concentração sangüínea
de lactato se mantém estável. Somente quando a remoção
não mantém paralelismo com a produção,
o lactato acumula-se no sangue.
Existem
quatro destinos possíveis para o ácido lático
-
Excreção na Urina e no Suor – Sabe-se que
o ácido lático é excretado na urina e no
suor. Entretanto, a quantidade de acido lático assim removida
durante a recuperação após um exercício
é negligenciável.
-
Conversão em Glicose e/ou Glicogênio – Já
que o ácido lático é um produto da desintegração
dos carboidratos (glicose e glicogênio), pode ser transformado
de novo em qualquer um desses compostos no fígado (glicogênio
e glicose hepáticos) e nos músculos (glicogênio
muscular), na presença de energia ATP necessária.
Contudo, e como já dissemos, a ressíntese do glicogênio
nos músculos e no fígado é extremamente lenta,
quando comparada com a remoção do ácido lático.
Além disso, a magnitude das alterações nos
níveis sanguíneos de glicose durante a recuperação
também é mínima. Portanto, a conversão
do ácido lático em glicose e glicogênio é
responsável apenas por uma pequena fração
do ácido lático total removido.
-
Conversão em Proteína – Os carboidratos, incluindo
o ácido lático, podem ser convertidos quimicamente
em proteína dentro do corpo. Entretanto, também
foi demonstrado nos estudos que apenas uma quantidade relativamente
pequena de ácido lático é transformada em
proteína durante o período imediato de recuperação
após um exercício.
-
Oxidação/Conversão em CO2 e H2O – O
ácido lático pode ser usado como combustível
metabólico para o sistema do oxigênio, predominantemente
pelo músculo esquelético, porém o músculo
cardíaco, o cérebro, o fígado e o rim também
são capazes dessa função. Na presença
de oxigênio, o ácido lático é transformado,
primeiro, em ácido pirúvico e, a seguir, em CO2
e H2O no ciclo de Krebs e no sistema de transporte de elétrons,
respectivamente. É evidente que o ATP é ressintetizado
em reações acopladas no sistema de transporte de
elétrons.
O
uso de ácido lático como combustível metabólico
para o sistema aeróbico é responsável pela
maior parte do ácido lático removido durante a recuperação
após um exercício intenso.
É
razoável suspeitar de que pelo menos parte da demanda de
oxigênio e da energia ATP associada com a remoção
do ácido lático é fornecida pelo oxigênio
consumido durante a fase de recuperação lenta (intensidade
de trabalho abaixo de 60% do VO2máx.).
Como
podemos lidar com o ácido lático e o que fazer para
sustentar a intensidade do exercício na presença
dele.
A
capacidade de gerar altos níveis sangüíneos
de lactato durante o exercício máximo aumenta com
o treinamento anaeróbio específico de velocidade-potência
e, subseqüentemente, diminui com o destreinamento.
A
manutenção de um baixo nível de lactato conserva
também as reservas de glicogênio, o que permite prolongar
a duração de um esforço aeróbico de
alta intensidade.
Foi
observado em pesquisas que, a elevação dos níveis
de lactato observada nos indivíduos treinados quando exercitados
agudamente foi significativamente menor que a observada nos sedentários.
Tais resultados reproduzem os achados clássicos descritos
na literatura, o que nos permite avaliar como eficazes, tanto
na intensidade do exercício agudo na determinação
de modificações no metabolismo energético,
quanto o protocolo de treinamento físico na produção
de adaptações orgânicas. Em outras palavras,
treinar para aumentar o limiar anaeróbico.
Referências
Bibliográficas:
FOSS,
M.L.; KETEYIAN, S.J. Bases Fisiológicas do Exercício
e do Esporte. 6ª ed. Rio de Janeiro. Guanabara Koogan, 2000.
MCARDLE,
William D. et al. Fisiologia do Exercício - Energia, Nutrição
e Desempenho Humano. 5.ed. Rio de Janeiro. Guanabara Koogan, 2001.
Por,
Raphael Lorete
CREF 9576-G/RJ
Graduado em Educação Física
Pós-Graduado em Musculação e Personal Trainner
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