E
se defender dizendo que só bebe socialmente, para descontrair,
tampouco garante um álibi: “Descrever os volumes
alcoólicos toleráveis ou de risco tem pouca importância
na prática clínica, uma vez que as consequências
deletérias do uso do álcool ocorrem também
em pessoas que ingerem quantidades bem inferiores àquelas
que indicam abuso”, lembra a médica nutróloga
Ellen Paiva, diretora do Citen, Centro Integrado de Terapia Nutricional.
O
primeiro grande problema do álcool é seu principal
componente, o etanol. “Assim que a pessoa toma um gole,
uma pequena parte dessa substância já começa
a entrar na corrente sanguínea pela mucosa da boca. Os
efeitos do álcool são percebidos em dois períodos,
um que estimula e outro que deprime. No primeiro, pode ocorrer
euforia e desinibição. Já no segundo momento
ocorre descontrole, falta de coordenação motora
e sono. Os efeitos agudos do consumo do álcool são
sentidos em órgãos como fígado, coração,
vasos e estômago. O abuso deste composto afeta muitos sistemas
de órgãos, causando tanto efeitos agudos, como crônicos”,
alerta Mônica Forte, nutricionista clínica e esportiva.
A
lista é grande: o etanol diminui a atividade do sistema
nervoso central, pode gerar simultaneamente efeitos positivos
e negativos no sistema cardiovascular, conduz a três diferentes
desordens patológicas no fígado (esteatose hepática,
hepatite alcoólica e cirrose), irrita a mucosa do estômago,
dificultando a digestão e aumentando a produção
de ácido gástrico no órgão, o que
gera sensação de enjoo e mal-estar.
O
segundo problema está intimamente ligado à incompatibilidade
esporte-álcool e é facílimo de ser notado:
quem bebe tem mais vontade de urinar pois o etanol age na hipófise,
glândula no cérebro que inibe a produção
de um hormônio que controla a absorção de
água pelos rins. Isso leva – além de muitas
idas ao banheiro – a um quadro de desidratação.
“Ocorre pela elevada taxa de excreção de urina,
portanto, tanto os atletas que visam performance aeróbia
podem se prejudicar da desidratação, como os praticantes
de atividade física em geral, com objetivos de hipertrofia,
perda de peso, podem ter seus resultados atrapalhados, uma vez
que a água é de fundamental importância para
o metabolismo corporal”, aponta Mônica.
A
terceira questão é relacionada ao valor nutricional
da cerveja, vinhos e afins: ele é zero. Apesar de calórico
– 1g de álcool fornece 7 calorias – não
contém nenhuma vitamina, nada de benéfico do ponto
de vista alimentício. E, para muitas pessoas, acaba inibindo
o apetite. Com isso, o costume de trocar jantares saudáveis
por hap-py hours pode até levar a um quadro de desnutrição.
“Isso ocorre por várias causas: ingestão insuficiente
de alimentos, dificuldade de absorver os alimentos ingeridos,
perda de proteínas pelo intestino e redução
da síntese de proteínas pelo fígado. Dentre
todas essas alterações, as dificuldades na ingestão
adequada de alimentos provoca desnutrição proteica,
deficiências de vitaminas A, C, D e do complexo B, magnésio
e zinco”, explica Ellen.
É
importante frisar que nem todo mundo reage da mesma forma com
a ingestão do álcool. “A maioria responde
a baixas doses com relaxamento leve e agradável. Os efeitos
causados pelo álcool também variam, além
da quantidade ingerida, dependendo ainda da química cerebral
de cada pessoa, fazendo com que o relaxamento inicial dê
lugar à sonolência ou a muita agressividade”,
explica Mônica. Por isso, também, muita gente pode
dizer que sai na noite anterior, toma todas e corre de manhã
numa boa. E até pode perfeitamente ser verdade, mas não
é regra.
Falando
especificamente de quem pratica esporte, além da questão
da desidratação, outro prejuízo se dá
por meio do que o bacharel em esporte e nutricionista Danilo Balu
chama de metabolização de substâncias inflamatórias
‘inimigas dos treinos’. “Para ser metabolizado,
o álcool é convertido em uma substância tóxica,
o acetaldeído. Quem bebe fica por mais tempo com esse composto
no corpo. Além disso, o álcool estimula a produção
exagerada de substâncias de ação inflamatória,
como as prostaglandinas, que geram incômodos físicos”,
explica.
Tudo
isso significa dizer que não importa se você ingere
um copo de cerveja por ano ou por minuto, toda vez que ingere
álcool está introduzindo algo maléfico à
saúde no corpo. Isso dito, não podemos esquecer
o papel social e de desinibição que a bebida cumpre:
aquele relaxamento após um dia estressante de trabalho,
o combustível de um papo animado com os amigos, a animação
para curtir uma noite de balada… são vários
os motivos para bebericar aqui e ali – e incontáveis
as oportunidades para fazê-lo.
Portanto,
levando em consideração que parar de beber completamente
não é uma opção para boa parte das
pessoas, mesmo quem está investindo na prática esportiva
como forma de promover a saúde – ‘afinal, pelo
menos eu corro para compensar’, há quem possa se
defender –, a solução é adotar uma
estratégia que una os benefícios do esporte aos
prazeres da noite. “O consumo moderado de algumas bebidas
alcoólicas (vinho e cerveja, por exemplo) vem sendo considerado
comprovadamente sadio, mas há um momento certo de oferecermos
cada tipo de alimento ao nosso corpo. Após os treinos é
importante ajudarmos na recuperação (com carboidratos
e proteína) e hidratação. Ou seja, o álcool
em si não evita ganhos de desempenho, mas seu consumo exagerado
ou no momento errado pode, sim, atrapalhar muito”, avisa
Balu. Veja, a seguir, como não errar na dose.
Hora
certa
“Tudo
na vida precisa ter um equilibrio”, frisa a nutricionista
Mônica Forte. No caso da convivência bebida alcoólica
e corrida, isso significa escolher entre performance e divertimento.
Se está perto daquela prova para a qual treinou tanto,
a qual quer fazer bem, vale a pena deixar as festas de lado por
uma, duas semanas. Se estiver numa época mais relaxada,
simplesmente aceite o fato de que não estará 100%
para correr. “Não se pode exagerar nas bebidas, nas
baladas, nas noites mal dormidas, na má alimentação,
assim como não vejo necessidade de abrir mão dessas
confraternizações, momentos com amigos, diversão,
por conta de treinos. Porém, é preciso ter prioridades.
Se estiver treinando para alguma competição específica,
creio que vale a pena focar nos seus treinos, descanso e alimentação.
Mas se você faz exercício sem fins competitivos,
acredito que o melhor é escolher o dia e período
do treino de maneira que haja tempo de recuperação,
sono e alimentação adequados mesmo com baladas”,
recomenda.
Os
corredores até trocam receitas pela internet, como comer
melancia após beber, por exemplo, mas o nutricionista Danilo
Balu também não vê milagre: ou desempenho,
ou diversão regada a álcool. “As duas coisas,
infelizmente, não existem.”
O
profissional lembra que, muito embora o álcool em si seja
prejudicial principalmente devido à desidratação
que provoca, no caso de quem frequenta casas noturnas os ‘inimigos
da performance’ apenas se multiplicam. “Hoje sabemos
que a noite de sono um dia antes da prova não é
assim tão mais importante, mas uma festa na noite anterior
pode vir a desgastar muito o atleta. Você pode comparecer
ao evento, mas seria prudente se alimentar corretamente, não
beber álcool para manter o corpo devidamente hidratado,
não fazer excessos físicos (dançando, por
exemplo) e tentar dormir bem. Ou seja, os dois estilos podem conviver
razoavelmente bem em algumas oportunidades, mas não há
como ser viável os exageros.”
Companhia
certa
Para
quem não é de ferro, há como fazer na noitada
o menor estrago possível no corredor que existe dentro
de você. As sugestões passam muito por variar o cardápio
e dar estímulos mais saudáveis ao corpo. “A
dica é jamais beber de estômago vazio – pois
os efeitos do álcool se potencializam pela rápida
absorção – e incluir bebidas não alcoólicas
ao longo do coquetel ou refeição. Se puder escolher,
que opte pela cerveja e pelo vinho, intercalando com sucos, refrigerante
ou água. A quantia varia de pessoa para pessoa em função
do peso (os menores devem beber menos), sexo (mulheres toleram
menos) e tolerância natural (algumas pessoas conseguem beber
naturalmente mais que outras)”, destaca Danilo Balu.
A
escolha do tipo de bebida a ser consumida faz toda a diferença.
“As destiladas (uísque, vodca, cachaça) apresentam
alto teor de álcool, chegando a 50%, enquanto a cerveja
tem em torno de 5%. Portanto, se a escolha for o primeiro tipo,
a dose deve ser bem mais controlada. Uma dose equivale a aproximadamente
285ml de cerveja, 120ml de vinho e 30ml de destilado. De maneira
geral, homens podem tomar 2 doses/dia, e as mulheres, apenas uma”,
informa Mônica Forte, que recomenda a ingestão de
um copo de água a cada dois de cerveja ou uma dose de destilado,
a fim de ajudar na reidratação.
Outra
dica da profissional, até fácil de cumprir, é
comer enquanto bebe. Mas não frituras e alimentos gordurosos.
“A combinação de um carboidrato e uma proteína
seria a melhor opção, como: lanche de pão,
carne, queijo e salada. Isso porque os alimentos dificultam a
absorção do álcool pelas paredes do estômago.”
Drink
Running
Há
quatro anos, São Paulo abriga uma prova para quem leva
a sério esse casamento entre bebida e corrida. A Drink
& Run não é famosa pelo percurso de 7km, mas,
sim, por seus ‘postos de hidratação’,
oito no total, nos quais os participantes bebem ao menos um chopp
em cada – não tem como escapar, são as regras.
Outras obrigações são largar, correr e chegar
junto com o grupo – em tempo, a prova não premia
vencedores – e o uso de uma fantasia, que muda anualmente.
Mas nem tudo é moleza: sentar e ficar no bar não
pode, tem que chegar, beber e continuar correndo. Com início
no Bar Pracinha e final no Piove, numa região famosa pela
vida boêmia, entre Itaim e Vila Olímpia, a corrida
nasceu, obviamente, de uma conversa de bar entre amigos, que queriam
premiar-se após um ano de muito treino. É realizada
em dezembro e tem até kit ressaca no pacote, que custa
R$ 200,00.
Os
cariocas também têm a sua ‘corrida etílica’,
em formato similiar, há 3 anos, igualmente em dezembro.
A Corrida Drunks, do Leblon ao Leme, prevê cinco paradas
de 10 minutos cada para ‘hidratação’
e 8km de percurso. Os R$ 35,00 de inscrição não
incluem os cinco chopps obrigatórios.
Corridas
etílicas não são privilégio do Brasil.
Na França, por exemplo, existe a Maratona de Médoc,
na qual é servido vinho aos atletas ao longo do percurso
e com direito a degustação de aperitivos.
Existem
ainda provas bem menos sérias, nas quais os participantes
se autodenominam ‘bebuns’. Equipes de quatro atletas
se revezam na tarefa de carregar um engradado de cerveja, que
larga cheio e tem que cruzar a linha de chegada vazio. Não
é preciso dizer que não se trata de corredores,
mas caminhantes. Em 2010, na fase pré-carnaval, estão
programados alguns eventos neste estilo, como a LuziCerva, em
Luziânia-GO e a 1ª Corrida da Cerveja de Arapiraca
(Alagoas).
Fonte:
Multiesportes
Não
queremos, e nem podemos, com a publicação desta
matéria obrigar alguém a deixar de beber, mas temos
a obrigação de reforçar que esporte e bebida
não combinam, principalmente se você está
em busca de rendimento.
Félix
Luis / Portaldocorredor |