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Agora,
é claro que o atleta que tem esse suporte, que consegue
lidar melhor, consegue, sei lá, fazer melhor uso de
uma derrota, é um atleta que fica mais tranqüilo,
que tem até uma qualidade de vida melhor, porque a
vida de atleta não é uma vida fácil.
Ele vive numa pressão 24 horas por dia. Se ele não
ganha, se ele bate sempre na trave, existe essa cobrança.
Se ele ganha existe, também, essa cobrança:
ele precisa continuar ganhando. Então, assim, ele precisa
ter isso tranqüilo na vida dele porque senão ele
não consegue ter saúde mental. Essa parte que
é muito importante. Ficar em paz, viver essa tal de
qualidade de vida que é um conceito bem discutido.
Eu acho que isso é um dos objetivos da psicologia do
esporte. Não é só fazer o atleta ganhar
medalha, mas é que ele consiga ter um bom rendimento,
mas que consiga ter esse tal de bem-estar psicológico,
porque senão a vida dele de atleta fica muito curta
e limitada. Ninguém consegue viver assim a vida inteira.
Folha
- A exigência dele é perfeição,
o que se exige de qualquer um é nota dez o tempo todo...
Sâmia
- Sim, mas veja que isso vale também para a gente,
que é profissional. A gente, também, não
pode errar, não é? Você pode fazer uma
matéria horrível? Eu posso fazer uma besteira?
Posso, eu vou ser criticada. A gente tem essa pressão,
também, talvez a diferença seja que a gente
não viva todos os holofotes. Então, quanto mais
bem sucedido você é, mais você vai estar
no foco, não é? Mas a gente tem essa pressão
no nosso dia-a-dia, a gente tem que fazer as coisas darem
certas. Só que tudo tem que ter um equilíbrio,
não é? Porque senão aí é
que não dá certo mesmo. Se a pessoa não
estiver equilibrada, se ela não estiver tranqüila,
aí as coisas não vão dar certo.
Reforço
positivo
Folha - E como é isso no mundo do
atleta amador, do corredor? Cada um costuma se cobrar muito...
Sâmia - Olha, eu corro, também.
E, aí a gente começa a correr, a gente começa
a conviver com pessoas que correm e dos mais variados tipos.
As pessoas começam a correr, talvez, buscando alguma
coisa diferente na vida. E a corrida dá muita coisa
legal em troca: é uma atividade superlegal, traz vários
benefícios para a saúde, sociais, você
conhece um monte de gente. Você começa a correr,
você melhora o seu rendimento, isso melhora a sua auto-estima,
você começa a se superar, coloca metas... Isso
se reflete na vida pessoal, amorosa, de relacionamentos. Esse
seria o lado positivo. Mas tem gente que acaba levando isso
muito a sério. Mesmo sem ser um corredor profissional,
a gente acaba convivendo com pessoas que correm e que acabam
focalizando muito a vida delas nisso, não é?
Então, a pessoa começa a correr para ter uma
atividade legal, relaxante e tal, e aquilo acaba se tornando
número um na vida delas. Então, a pessoas, às
vezes, deixa de sair se divertir, ter uma vida social, porque
tem que treinar todos os dias às 5 horas da manhã.
E, às vezes, essa pressão é com ela mesma.
E, quando elas não conseguem, como é que elas
lidam com essa frustração? Por que aí,
assim, puxa eu não posso tudo. Eu não sou o
super-homem que eu imaginava. Ou elas começam a se
dedicar e fazem aquela atividade de repente ser a mais importante
da vida delas e começam a buscar desafios cada vez
mais altos.
Eu
acho que tem muito a ver com o que a gente chama na psicologia
de reforçadores. Quais são os reforçadores
que a gente tem disponíveis na nossa vida? Tem um monte
de coisas que dá prazer para a gente. Coisas simples,
às vezes, a relação com o filho ou uma
relação com um parceiro legal. Ter um trabalho
bem-sucedido. Sair para correr no parque. Ir a um cinema.
Sair para jantar com os amigos, a gente tem inúmeros
reforçadores e a gente busca isso na vida, coisas que
fazem a gente se sentir bem. E, às vezes, a gente vê
que o atleta de alto rendimento ou esse atleta amador, que
fica muito bitolado, muito restrito a uma atividade, ele deposita
todos os seus reforçadores naquilo. Então, as
outras coisas param de ter graça na vida dele.
Folha
- Então, o que a pessoa tem que aprender? Ela tem que
aprender que ela, o seu valor não está colocado
em nenhuma coisa individual que ela faça ou deixe de
fazer, não é ?
Sâmia - Sim, está em tudo. Não
é porque eu não consegui ter uma medalha de
ouro na Olimpíada que eu sou uma pessoa desprezível.
Eu tenho outras qualidades. Puxa, eu cheguei no bronze ou
eu cheguei em quinto lugar ou eu sou um atleta reconhecido,
eu tenho outras qualidades. Eu acho que isso ajudar a manter
esse bem-estar psicológico da pessoa. É que
a gente, às vezes, focaliza e parece que tudo na vida
vai depender daquela medalha. Tudo na minha vai depender se
eu vou conseguir ou não fazer uma maratona em quatro
horas? Eu perco essa visão mais geral. Puxa, às
vezes, eu sou uma boa mãe ou um bom pai, eu tenho uma
vida legal, um trabalho que me satisfaz, mas eu focalizo,
de repente, eu fracassei naquela tarefa específica
e, portanto, eu sou um fracassado. Acho que essa é
uma visão errada, que, às vezes, a pessoa acaba
tendo, porque ela focaliza muito tudo naquela atividade em
particular.
Folha
- É claro que não tem uma receita de bolol,
mas que caminhos o sujeito pode trilhar para tentar chegar
nesse ponto menos bitolado, com uma visão de si mesmo
no mundo?
Sâmia
- Então, eu acho que é muito pelo pensamento
da pessoa, não é? O que a gente pensa, às
vezes, determina aquilo que a gente vai fazer e aquilo que
a gente vai sentir. Eu sou psicóloga e eu posso estar
defendendo o meu peixe, mas, se a pessoa está num extremo
desses ela se beneficiaria de um trabalho de terapia, porque
o problema não é especificamente os três
segundos ali, o buraco, provavelmente, é mais embaixo,
mas, as pessoas ainda têm uma resistência muito
grande. Porque o que na verdade a terapia vai fazer? Ela vai
ajudar a pessoa a enxergar as coisas de um outro ponto de
vista. Então, às vezes, a gente enxerga ali
que toda a felicidade do mundo está em diminuir três
segundos naquela volta de 400 metros, no treino daquela volta.
E, a gente deixa de enxergar o quanto tem outras coisas tão
importantes acontecendo na nossa vida. Então, talvez,
assim, buscar uma ajuda ou de um amigo. Eu acho que, assim,
uma ajuda especializada em muitos casos ela é necessária
até porque às vezes a pessoa está deixando
de ver o quanto a vida dela é legal e desvalorizando
outras coisas boas que ela tem na vida e concentrando, aposta
todas as fichas dela numa corrida, por exemplo ou naquele
treino. E, aí é um circulo vicioso...
Folha
- Corrida que deveria ser, em tese, um negócio para
o fulano relaxar.
Sâmia - Para relaxar. Mas, sabe o que
a gente vê? Que a pessoa, às vezes não
tem uma vida legal e ela deposita todas as fichas naquilo.
Em vez dela buscar melhorar os relacionamentos dela... O exercício
físico ou a corrida, em vez de ela ser uma coisa para
trazer o bem-estar, funciona como uma fuga. Uma fuga porque
se eu coloco para mim que eu preciso todo dia acordar às
5 horas da manhã e treinar de manhã e treinar
na hora do almoço e treinar à noite, eu tenho
uma desculpa para mim mesma que eu não tenho lazer
dos amigos ou que eu não cultivo amigos, entendeu ?
Isso
é uma coisa meio complicada, mas a verdade é
essa. Eu acabo saindo um pouco do mundo, me isolando, mas
com uma desculpa honrosa para mim mesma pelo menos. Você
vê que hoje em dia existe até essa nova doença,
que se chama vigorexia, não é?
Entenda
a vigorexia
Folha - O que é isso?
Sâmia - A vigorexia seria o vício
em atividade física. Essa doença nem está
catalogada ainda no DSM, que é o manual dos distúrbios
mentais, mas é uma doença... Ela, ainda, na
verdade, nem está sendo reconhecida como tal, está
sendo estudada. Mas, o que seria a vigorexia? Seria assim,
o sujeito tem um excesso de atividade física... Sabe
aqueles caras que ficam 24 horas por dia numa academia para
ter músculo? E ele tem músculo porque ele não
vê o músculo e ele cada vez faz mais atividade
física...
Folha
- Tô fraco, tô fraco, tô fraco....
Sâmia - Ela pode ser comparada, ela
é o inverso da anorexia, onde a mulher pára
de comer. Isso acontece mais com mulher, ela se vê como
gorda, ela pára de comer, ela emagrece e ela continua
se vendo gorda no espelho. É o distúrbio da
imagem corporal. Mas, a vigorexia ou esse vício da
atividade física é uma doença da sociedade
moderna. Isso não existia alguns anos atrás.
Então, a pessoa acaba se isolando dos relacionamentos,
da família, de ter relacionamentos amorosos, às
vezes, ela até compromete o próprio trabalho
em busca de um corpo perfeito e por mais que ela faça
atividade física, mais ela precisa fazer. Então,
isso é, acho que, talvez, uma coisa comportamental
mesmo, não é? A vigorexia é mais estudada,
mais voltada para o aspecto da musculação, que
tem a ver com a imagem corporal.
Folha - Voltando ainda para a questão
do erro e da dor do erro, um pouco para o atleta profissional
e para o amador, errar afinal é humano ou é
desumano ?
Sâmia - Não, errar é
humano, errar faz parte da vida a gente acerta e erra o tempo
todo. O problema é como: o que a gente faz com o erro?
Eu acho que o problema é esse. Errar todo mundo vai
sempre errar. O problema é o que a gente faz com ele
e como a gente se comporta depois do erro. Então acho
que isso é o crucial.
Folha
- Ou seja, o fulano que errou é que pode ser desumano
consigo mesmo.
Sâmia - Isso, perfeito. Se eu olho
para o erro como - é claro que a hora que eu errei,
a hora que eu fracassei é muito dolorosa, é
muito sofrida e todo mundo vai sofrer com o erro, com uma
coisa que não deu certo. Todo mundo vai chorar, todo
mundo vai sofrer. Só que tem uma hora que eu preciso
fazer alguma coisa com aquilo. E, o que eu tenho que fazer?
Bom, se o que eu fiz me levou a essa situação
de erro, talvez, para eu ter um resultado diferente, eu tenho
que fazer diferente. E, aí eu tenho que buscar uma
outra alternativa para mudar minha estratégia. Se eu
mudar o que eu fiz, eu vou mudar o resultado, porque o resultado
é produto do nosso comportamento. Então, se
eu mudar o que eu faço, eu mudo o resultado que eu
tenho. Esse é um dos princípios básicos
da análise do comportamento. Se eu tenho o meu comportamento,
eu mudei aquilo que eu fiz, eu mudei o resultado daquilo e
aí eu aprendo a me comportar de maneira diferente e
aí eu tenho um resultado diferente. Quando eu tenho
um resultado diferente, eu vou olhar para o meu olho e falar:
puxa vida, olha, que legal?
Folha
- É, mas aí você aprendeu não com
o erro, mas aprendeu com o acerto novo. Quando você
erra, você aprende que aquele não é um
caminho. Então, você não teve um aprendizado
de vitória.
Sâmia - Ah, não, mas, de alguma
maneira, você iniciou uma nova caminhada. É,
eu não aprendi com o erro, mas eu vou aprender com
aquilo que o erro, de repente me fez mudar, porque o erro
de repente fez parte para eu mudar o meu comportamento, porque
daquele jeito que eu estava fazendo não estava dando
certo. Então, preciso mudar meu comportamento para
mudar meu resultado. Aí eu aprendo, sim, com esse novo
comportamento, que é o legal, que é o acerto.
Folha
- Na Olimpíada, alguns países entraram em grande
número de finais e perderam quase todas. Há
um medo de vencer? O tal amarelão?
Sâmia
- Essa questão de amarelar é uma questão
muito complicada. O que a gente tem de visão de fora
nem sempre é a visão acertada. Então,
às vezes, as pessoas me perguntam assim: puxa, mas
será que fulano de tal não ganhou tal prova
por que amarelou? Eu falo: não sei. Primeiro, porque
eu não gosto muito desse conceito amarelar, não
é? Não dá para a gente generalizar. Por
que pode ser que o atleta não tenha conseguido a medalha
porque, sei lá, um excesso de ansiedade o atrapalhou
na final? Pode. Mas essa é uma possibilidade entre
mil outras, não é? Então, a gente não
sabe. Tem todo o lado, de repente, da preparação
física, técnica, tática. Não é
só o emocional; o emocional ajuda, mas ele não
define sozinho.
Não
adianta o cara estar bem preparado emocionalmente e não
estar bem preparado fisicamente, porque ele não vai
agüentar, de repente, ele não vai ter pernas para
completar a prova. Também, o contrário é
verdadeiro, não adianta ele ter pernas e não
ter cabeça. Na verdade, é um conjunto de coisas
que vão fazer um atleta ser o vencedor. Não
dá para afirmar: é isso. Não é
matemática, é muito mais do que isso.
Fonte:
Rodolfo Lucena / UOL