.
Não
há chip nem pórtico de largada: os corredores
nos amontoamos em um das saídas da pista de atletismo,
ouvimos as orientações do diretor da prova e
acompanhamos a interpretação do Hino Nacional.
Como é costume, o canto é solo; nós ouvimos
em silêncio; minha mente canta o Ouviram do Ipiranga
e celebra meu aniversário de casamento, hoje tão
longe da Eleonora.
Largada!
São
8h e mais um pouquinho, o sol brilha, não há
nuvens, e o vento apenas de vez em quando dá sinal
de vida. Os termômetros já marcam 16 graus, e
as perspectivas de de temperatura crescente. Em compensação,
o percurso prometido é totalmente plano --pizza-flat
como dizem os americanos...
Aliás,
não por acaso a prova é identificada como Skagit
Flats, referenciada nas planícies do condado de Skagit,
que se orgulha de sua poderosa e superprodutiva agricultura,
famosa por suas maçãs, ervilhas e pela belíssima
produção de flores ("Temos mais tulipas
que a Holanda, que importa nossos bulbos", orgulha-se
Jeff, filho de Lenore).
E
é por campos agriculturados que passamos, correndo
pelo asfalto quente. As estradas são construídas
em platôs, de modo que ficamos sempre acima do nível
das plantações.
Mal
começamos a correr, já há um posto de
água, antes mesmo do segundo quilômetro. Como
todos os outros, cheio de gente sorridente, uma garotada da
escola que se agita, aplaude e incentiva. Cada posto tem água
e isotônico, pelo menos; em quase todos, há pelo
menos um banheiro químico, o que impressiona considerando
o pequeno número de participantes (cerca de 700 no
total, com mais de dois terços na meia-maratona).
O
clima alegre ajuda a correr. Mesmo com as costas doloridas
e o corpo ainda cansado da maratona de Reykjavik, consigo
ir bem rápido, para meus padrões tartaruguescos:
passo os 10 km em uma hora cravada e não estou nem
sentindo.
Isso
vai mudando aos pouco, pois o cansaço bate, a lombar
grita e o sol aperta. Lá pelo km 18, planejo chegar
à metade da prova e então começar a caminhar
e correr, para dar uma folga para a musculatura. Mas é
um pensamento um tanto vexatório nessa prova carregada
de Marathon Maniacs. Fico sabendo que há um bom número
que fez, no dia anterior, uma pequena ultra de 50 km e hoje
veio aqui para soltar a musculatura. Mas todos estão
láááá na frente....
Na virada
do percurso (o trajeto é a coisa mais simples do mundo:
vai-se por 21 km e volta-se por outras tantos; o resto será
feito na pista de atletismo da escola), meus planos vão
por água abaixo, pois volto a emparelhar com uma dupla
de MMs com quem vinha disputando corrida, e a gente vai seguir
junto por meia dúzia de quilômetros, cada um
contando vantagem, falando de suas tantas maratonas.
Um deles
já fez 30 só neste ano, mas diz que é
pinto, porque há outro sócio, também
supermaster (o que significa bem velhinho, setentão),
que já fez 75 e deve passar fácil das cem neste
ano...
Não
sei como esse povo consegue, como não se machucam,
como não se importam.... Os dois maníacos que
acompanho (foto) vão lentos, tipo 6min40 a 7min/km,
mas mantêm o ritmo sempre, o que acaba por me deixar
para trás lá pelo 27 ou 28. Sozinho
com meus demônios, vou permitindo que o calor me abata,
que o ritmo se alesme e que o sol tome conta do terreno. E
levo a mente a filosofar sobre a fraqueza humana, a minha,
na verdade. Como a gente (eu) pode ser tão preguiçoso
e folgado...
Fico
aqui, correndo uma maratona, sabendo que vou terminar em algum
momento e, talvez por isso, deixo que a busca por conforto
me domine, em vez de heroicamente perseguir o ritmo perfeito,
a velocidade que encanta, a passada que embala e acalma.
Sei que
dá (ou daria ou poderia dar) pois, quando resolvo correr,
apertar um pouquiinho que seja o trote, meu ritmo cai de novo
para seis e pouco. O problema é segurar isso, ter força
de vontade... Aproveito que a lombar dói bastante para
forjá-la como desculpa racional.
E coloco
metas: corro um quilometro, caminho 50 passos; corro 500 metros,
descanso um minuto... Passo um outro sujeito, alcanço
uma senhora, deixo para trás um casal bem jovem...
Alegro-me, aproveito como incentivo, mas logo deixo o corpo
relaxar.
Pasando
do km 35, as desculpas vão crescendo, assim como o
calor. As paradas nos postos de água se alongam, e
aproveito para comer algo que os caras oferecem, para mim
inédito: uma mistura de confeitos de chocolates, granola
em pedaços, frutas secas, amendoim e caju. Dou uma
mãozada, dou outra: é muito bom. Com água
gelada, então, manjar dos deuses...
Eu aqui
estou mais para anjo torto, decaído e desasado. Já
falta menos que uma volta no Ibirapuera, e o sol já
fez todo o estrago que podia, reforçando minhas dores
e preguiça. Para completar, uma velhinha bem velhinha
passa por mim e segue num trote firme, com o maior sorriso
no rosto (foto abaixo). O marido dela, ainda mais velhinho,
acompanha de bicicleta, pára, tira fotos, dá
a ela isotonico, ouve ordens para seguir adiante e esperá-la
no ponto x, enquanto eu a tudo acompanho caminhando.
Tomo
vergonha na cara e, sem me esforçar muito, troto algumas
centenas de metros até emparelhar com a tal senhora,
que faz graça comigo: "Eu sabia que seria um incentivo
para você. Imagina que você ia agunetar ser ultrapassado
por uma velha senhora...". Digo a ela que já fui
ultrapassado por gente até mais velha e muitas vezes...
Mas aqui, o inédito é que a senhora, enrugada
e de cabelos brancos, mas magrinha e durona, com ar de fortaleza,
está estreando na maratona aos 67 anos, idade lembrada
em seu número do peito...
Ela
não é exceção nesta prova: mais
de 31% dos que terminaram a maratona têm mais de 50
anos; muitos, mais muitos mesmo, mais de 60...
Isso
é muito mais que o encontrado na média das maratonas
nos EUA, em que a participação dos cinquentões
e outros velhinhos da pá virada e com motor fervendo
com diversão mal passa dos 18%.
Parabéns.
Eu também sou membro desse grupo de sêniores,
mas na turma dos folgados. Sigo em frente apenas para ser
ultrapassado pela debutante uns dois quilômetros depois.
Falta muito pouco.
Eu corro
um pouco mais, descanso um pouco mais, marco como adversário
um outro sujeito, que passo e depois perco, mas que continua
por ali... Só depois de km 41 voltamos a território
urbano, se é que se pode chamar assim as ruas dessa
cidadezinha que, no total, mal chega a 9.000 habitantes.
A marca
da última milha é no portão da escola,
aonde cheguei depois de ter ultrapassado aquele último
alvo... Pelo menos, algum orgulho posso juntar dos pedaços
quebrados ao longo do caminho. Os poucos espectadores que
restam e corredores que já se encaminham para suas
casas aplaudem, o que me faz apertar o passo e entrar, para
variar, correndo na pista.
Muitos
MMs me saúdam, eu agradeço, retribuo com gritos
de Brasil e termino em 5h03 quase 04 para receber a medalha
das mãos de Lenore Dolphin. Com ela, vou esperar a
chegada de Bob, uma hora depois.
Já
não sinto cansaço, a musculatura parece estar
buscando forças para iniciar sua recuperação.
Prometo às pernas e à lombar que agora vou parar
um pouco. Mas já fico pensando: onde será a
próxima ?
Texto
e fotos: Rodolfo Lucena / UOL