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SKAGIT FLATS MARATHON - WASHINGTON


Atletas masters invadem o asfalto mundo a fora

Cada maratona tem uma cara. Em algumas, a personalidade é dada pelo percurso; em outras, o clima é o fator dominante; belezas naturais marcam outras tantas, enquanto as mais famosas são caracterizadas por grande quantidade de participantes rodando em trajetos urbanos de algumas das maiores metrópoles deste mundo velho sem porteira.

Pois a pequena prova da pequena Burlington, no condado de Skagit, nordeste do Estado de Washington, a meio caminho entre Seattle e a fronteira com o Canadá, tem cara enrugada, cabelos grisalhos e músculos temperados por décadas: nunca vi tanto velhinho junto correndo. Não por acaso, nunca vi também tanta gente junto envergando orgulhosa o uniforme do Marathon Maniacs, o clube que reúne doidões que fazem maratonas aos borbotões (eu sou um dos integrantes....).

No sábado, véspera da prova, encontrei os Dolphins, meus amigos de e-mail que finalmente chegaram à vida real. Casados há 14 anos, formam uma superdupla, em que ela dá o maior apoio, organiza tudo o que é preciso, aplaude, abraça e beija no final, enquanto ele corre: Bob Dolphin, 78, completou no último domingo sua maratona de número 430.

Muitas delas ele contou em e-mails que manda aos amigos, neles, a participação da mulher, Lenore, também é determinante, pois é ela quem põe no computador o relato ditado por Bob, que se desculpa por nunca ter aprendido a datilografar.

Conversamos, sou apresentado a outros corredores veteranos (os Dolphins, que vivem a cerca de 120 quilômetros de Burlington, parecem conhecer cada um pelo nome) e depois vamos a um jantar em família, pois um dos filhos de Lenore vive em Mount Vernon, cidade-irmã de Burlington.

Na manhã de 7 de setembro, eles me pegam no hotel e vamos para a largada. O quartel-general é um escola pública, e muita gente ainda faz sua inscrição agora, pouco antes da largada. Há muito espaço, muita gentileza e conforto: podemos usar as instalações da escola. Os banheiros são os dos vestiários: é tudo aberto, sem portas (mesmo a área da privada...), mas há também banheiros químicos, como em grande parte das provas.

Os Dolphins (foto) me apresentam a Tony, que é uma espécie de vice-presidente do MM, e a vários outros integrantes do grupo, além de organizadores de provas e corredores velhinhos de vários lugares. Um sujeito veio da Austrália há algumas décadas; hoje aposentado, corre maratonas aos borbotões e é muito rápido: pretende fazer a meia em menos de três horas, o que é excelente para um vovô de 80 anos...

 

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Não há chip nem pórtico de largada: os corredores nos amontoamos em um das saídas da pista de atletismo, ouvimos as orientações do diretor da prova e acompanhamos a interpretação do Hino Nacional. Como é costume, o canto é solo; nós ouvimos em silêncio; minha mente canta o Ouviram do Ipiranga e celebra meu aniversário de casamento, hoje tão longe da Eleonora.

Largada!

São 8h e mais um pouquinho, o sol brilha, não há nuvens, e o vento apenas de vez em quando dá sinal de vida. Os termômetros já marcam 16 graus, e as perspectivas de de temperatura crescente. Em compensação, o percurso prometido é totalmente plano --pizza-flat como dizem os americanos...

Aliás, não por acaso a prova é identificada como Skagit Flats, referenciada nas planícies do condado de Skagit, que se orgulha de sua poderosa e superprodutiva agricultura, famosa por suas maçãs, ervilhas e pela belíssima produção de flores ("Temos mais tulipas que a Holanda, que importa nossos bulbos", orgulha-se Jeff, filho de Lenore).

E é por campos agriculturados que passamos, correndo pelo asfalto quente. As estradas são construídas em platôs, de modo que ficamos sempre acima do nível das plantações.

Mal começamos a correr, já há um posto de água, antes mesmo do segundo quilômetro. Como todos os outros, cheio de gente sorridente, uma garotada da escola que se agita, aplaude e incentiva. Cada posto tem água e isotônico, pelo menos; em quase todos, há pelo menos um banheiro químico, o que impressiona considerando o pequeno número de participantes (cerca de 700 no total, com mais de dois terços na meia-maratona).

O clima alegre ajuda a correr. Mesmo com as costas doloridas e o corpo ainda cansado da maratona de Reykjavik, consigo ir bem rápido, para meus padrões tartaruguescos: passo os 10 km em uma hora cravada e não estou nem sentindo.

Isso vai mudando aos pouco, pois o cansaço bate, a lombar grita e o sol aperta. Lá pelo km 18, planejo chegar à metade da prova e então começar a caminhar e correr, para dar uma folga para a musculatura. Mas é um pensamento um tanto vexatório nessa prova carregada de Marathon Maniacs. Fico sabendo que há um bom número que fez, no dia anterior, uma pequena ultra de 50 km e hoje veio aqui para soltar a musculatura. Mas todos estão láááá na frente....

Na virada do percurso (o trajeto é a coisa mais simples do mundo: vai-se por 21 km e volta-se por outras tantos; o resto será feito na pista de atletismo da escola), meus planos vão por água abaixo, pois volto a emparelhar com uma dupla de MMs com quem vinha disputando corrida, e a gente vai seguir junto por meia dúzia de quilômetros, cada um contando vantagem, falando de suas tantas maratonas.

Um deles já fez 30 só neste ano, mas diz que é pinto, porque há outro sócio, também supermaster (o que significa bem velhinho, setentão), que já fez 75 e deve passar fácil das cem neste ano...

Não sei como esse povo consegue, como não se machucam, como não se importam.... Os dois maníacos que acompanho (foto) vão lentos, tipo 6min40 a 7min/km, mas mantêm o ritmo sempre, o que acaba por me deixar para trás lá pelo 27 ou 28. Sozinho com meus demônios, vou permitindo que o calor me abata, que o ritmo se alesme e que o sol tome conta do terreno. E levo a mente a filosofar sobre a fraqueza humana, a minha, na verdade. Como a gente (eu) pode ser tão preguiçoso e folgado...

Fico aqui, correndo uma maratona, sabendo que vou terminar em algum momento e, talvez por isso, deixo que a busca por conforto me domine, em vez de heroicamente perseguir o ritmo perfeito, a velocidade que encanta, a passada que embala e acalma.

Sei que dá (ou daria ou poderia dar) pois, quando resolvo correr, apertar um pouquiinho que seja o trote, meu ritmo cai de novo para seis e pouco. O problema é segurar isso, ter força de vontade... Aproveito que a lombar dói bastante para forjá-la como desculpa racional.

E coloco metas: corro um quilometro, caminho 50 passos; corro 500 metros, descanso um minuto... Passo um outro sujeito, alcanço uma senhora, deixo para trás um casal bem jovem... Alegro-me, aproveito como incentivo, mas logo deixo o corpo relaxar.

Pasando do km 35, as desculpas vão crescendo, assim como o calor. As paradas nos postos de água se alongam, e aproveito para comer algo que os caras oferecem, para mim inédito: uma mistura de confeitos de chocolates, granola em pedaços, frutas secas, amendoim e caju. Dou uma mãozada, dou outra: é muito bom. Com água gelada, então, manjar dos deuses...

Eu aqui estou mais para anjo torto, decaído e desasado. Já falta menos que uma volta no Ibirapuera, e o sol já fez todo o estrago que podia, reforçando minhas dores e preguiça. Para completar, uma velhinha bem velhinha passa por mim e segue num trote firme, com o maior sorriso no rosto (foto abaixo). O marido dela, ainda mais velhinho, acompanha de bicicleta, pára, tira fotos, dá a ela isotonico, ouve ordens para seguir adiante e esperá-la no ponto x, enquanto eu a tudo acompanho caminhando.

Tomo vergonha na cara e, sem me esforçar muito, troto algumas centenas de metros até emparelhar com a tal senhora, que faz graça comigo: "Eu sabia que seria um incentivo para você. Imagina que você ia agunetar ser ultrapassado por uma velha senhora...". Digo a ela que já fui ultrapassado por gente até mais velha e muitas vezes... Mas aqui, o inédito é que a senhora, enrugada e de cabelos brancos, mas magrinha e durona, com ar de fortaleza, está estreando na maratona aos 67 anos, idade lembrada em seu número do peito...

Ela não é exceção nesta prova: mais de 31% dos que terminaram a maratona têm mais de 50 anos; muitos, mais muitos mesmo, mais de 60...


Isso é muito mais que o encontrado na média das maratonas nos EUA, em que a participação dos cinquentões e outros velhinhos da pá virada e com motor fervendo com diversão mal passa dos 18%.

Parabéns. Eu também sou membro desse grupo de sêniores, mas na turma dos folgados. Sigo em frente apenas para ser ultrapassado pela debutante uns dois quilômetros depois. Falta muito pouco.

Eu corro um pouco mais, descanso um pouco mais, marco como adversário um outro sujeito, que passo e depois perco, mas que continua por ali... Só depois de km 41 voltamos a território urbano, se é que se pode chamar assim as ruas dessa cidadezinha que, no total, mal chega a 9.000 habitantes.

A marca da última milha é no portão da escola, aonde cheguei depois de ter ultrapassado aquele último alvo... Pelo menos, algum orgulho posso juntar dos pedaços quebrados ao longo do caminho. Os poucos espectadores que restam e corredores que já se encaminham para suas casas aplaudem, o que me faz apertar o passo e entrar, para variar, correndo na pista.

Muitos MMs me saúdam, eu agradeço, retribuo com gritos de Brasil e termino em 5h03 quase 04 para receber a medalha das mãos de Lenore Dolphin. Com ela, vou esperar a chegada de Bob, uma hora depois.

Já não sinto cansaço, a musculatura parece estar buscando forças para iniciar sua recuperação. Prometo às pernas e à lombar que agora vou parar um pouco. Mas já fico pensando: onde será a próxima ?

 

Texto e fotos: Rodolfo Lucena / UOL

 
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